Saúde Mental em meio a Pandemia
 

Clarissa Reis

Muito curioso observar como o conceito de saúde mental se fragiliza diante de momentos históricos de crise que coloca em xeque o paradigma dominante de nossa cultura, tal qual o que estamos a viver. O dito “doente mental” pode adquirir ares de lucidez e o “médico/terapeuta” pode se revelar em sua demasia humana: frágil, vulnerável, hesitante.

Não está sendo incomum identificar “pacientes” com um senso de sobriedade e equilíbrio, assim como o terapeuta pode se confessar em sintomas de pânico. Estaria a dizer que de médicos e loucos todos temos um pouco? Exatamente! Bem clichê e bem real. O que estou a dizer é que, para além das personas - os ditos papéis sociais que ocupamos, reside em nós e antes de qualquer personagem que desempenhamos, criaturas meramente humanas. Também não estou dizendo que as personas são ruins. Elas são necessárias e inevitáveis. Ora estamos no papel de profissional, ora estamos no papel de companheira, companheiro, ora de cliente, mãe, pai, tia, tio, filha, filho, conselheira, conselheiro, mestre e discípulo. No entanto, mais intimamente e para além disso, somos seres providos de consciência.

Acontece que existe um risco significativo de nos confundirmos com os nossos papéis: fixamos a nossa subjetividade numa ou em outra persona que gostamos mais de atuar e perdemos o sentido de naturalidade do ser, de existência na unidade da vida. O resultado é um quadro de profunda inadequação e inconveniência. Ser louco e ser terapeuta é apenas mais um papel, que ainda não diz da nossa real natureza. Nesse tempo de pandemia, você se identifica com algum desses personagens? O louco? O terapeuta? O guru? O discípulo? Provavelmente, podemos nos perceber transitando entre todos eles.

E por que uma terapeuta faria um post como esse? Porque aprendi a me autorizar enquanto pessoa humana na minha profissão/missão: sinto, sofro, amo, choro, enlouqueço, danço, grito, gargalho, brinco, esbravejo, silencio, retorno ao centro juntamente com aqueles que confiam na minha qualidade profissional, e sobretudo na minha qualidade humana. Hoje só acredito em terapeutas que se arriscam, enquanto sujeitos puramente humanos. Aqueles que se comprometem com o seu papel social, com sua função laboral, e ainda optam por trabalhar com a alma, com todo o seu potencial humano e fazem da dor e do sofrimento algo criativo, inventivo, transformador. É bem verdade que o drama daqueles que atendemos também é aprofundamento nosso. Somos UM! #por Clarissa Reis, psicóloga e terapeuta corporal.

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clarissareis@gmail.com

O Degrau do Meio

 

Flávio Fonseca

 

Muito se tem falado no mundo atual sobre a importância do autoconhecimento. Naturalmente concordamos com tudo o que tem sido dito: é básico para o equilíbrio psicológico, o desenvolvimento espiritual, o bem-estar do ser humano.

Porém, acreditamos que o autoconhecimento não é um conceito isolado, um fim em si mesmo. Para que ele seja alcançado, há uma etapa fundamental a ser cumprida primeiro; e após atingi-lo, cabe perguntar: o que fazer com isso?

É, portanto, apenas o degrau do meio.

Antes do autoconhecimento, para que possamos nos preparar para ele, caminhar até ele, precisamos da auto-observação.

Olhar para si. Algo tão fácil de falar, mas que nunca nos foi ensinado. Como fazê-lo?

Você já se perguntou quais são seus impulsos habituais? Suas tendências? Você é capaz de prever suas reações diante de um fato qualquer?

Para se auto-observar é preciso se colocar em terceira pessoa. Como se fôssemos outro prestando atenção no que estamos fazendo, com senso crítico e julgamento. Não um julgamento maldoso, naturalmente, mas o mais imparcial possível: apenas se dando conta do que estamos fazendo, pensando, sentindo...

Um amigo meu contou-me certa vez que, em seus momentos de meditação, imagina-se atrás de sua própria cabeça, examinando os pensamentos que passam por ali. Sim, a meditação, entre outras coisas, é um bom exercício de auto-observação.

Melhor ainda se formos capazes de fazer este exame sem julgamento nenhum: apenas se informando.

Nas tradições cristãs conhece-se bem uma recomendação de Jesus: orai e vigiai. É evidente que ele não sugeria que vigiássemos o nosso vizinho. Ele estava falando de auto-observação.

Após um período de auto-observação – pois é claro que não é um processo rápido, imediatista, como todo exercício –, estaremos mais capacitados a nos conhecer. Prontos a prever nossos próximos passos, deduzir nossas atitudes e posturas futuras, planejar com mais precisão a realização de algum projeto íntimo. O que nos leva ao degrau seguinte: a autotransformação. 

De que nos adiantaria conhecer melhor a nós mesmos e continuarmos sendo do mesmo jeito que sempre fomos? Como diz uma máxima bastante repetida nos dias de hoje: se continuarmos fazendo o que sempre fizemos, continuaremos obtendo o que sempre obtivemos.

Este talvez seja o degrau que mais demande esforço. E coragem. Determinação. É preciso encarar frente a frente a nossa sombra, nossas iniquidades disfarçadas. Atravessar a dor que isso pode causar. E decidir o que precisa ser mudado, como deve ser mudado. E colocar as mãos à obra. Enfrentando toda a resistência que surgir em nós mesmos e nos que nos circundam.

Isto pode receber nomes diversos: individuação, reforma íntima, ampliação da consciência, realização pessoal... meta da vida.

 

(Texto retirado do e-book gratuito O Degrau do Meio: Uma visão do autoconhecimento.

Para baixar o seu exemplar, clique aqui: bit.ly/odegraudomeio)

 

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